quinta-feira, 7 de maio de 2009

Santa Chuva


Não choveu. Nem um minuto das 24 hs de virada cultural. Para começar a segunda etapa um pouco no Nação Zumbi, depois Zeca Baleiro. Volto a República e Nazi relembra os grandes sucessos da história do rock nacional, com direito a homenagem para Raul Seixas e blues. Depois de ver o Corinthians ser campeão, volto a avenida São João. Maria Rita apresenta um show cheio de samba e no bis, enfim, faz chover.

Quem é você pra me chamar aqui
Se nada aconteceu?
Me diz?
Foi só amor? Ou medo de ficar
Sozinho outra vez?
Cadê aquela outra mulher?
Você me parecia tão bem...
A chuva já passou por aqui
Eu mesma que cuidei de secar


A multidão desaparece e como sempre que ouço Maria Rita cantar essa canção vejo você diante de mim dizendo cada palavra. Não são tuas, mas bem que poderiam. Sinto que é o que gostaria de ter dito. Sei. Tem o direito de dizer, mas não disse. Não foi preciso. Estão escritas nos seu olhos. Eu as vejo em cada olhar, a cada reencontro.

Não há porque chorar
Por um amor que já morreu
Deixa pra lá
Eu vou, adeus
Meu coração já se cansou de falsidade...

quarta-feira, 6 de maio de 2009

Tim Maia Racional


numa relax,
numa tranquila,
numa boa...


Depois de uma nostálgica apresentação da banda Velhas Virgens na praça da República, deixo a veia mais rock de lado por um momento e retorno ao palco da São João. O Coletivo Instituto, organizado por Daniel Ganjaman, faz uma multidão ferver, mesmo na fria madrugada paulistana, em uma apresentação baseada no álbum duplo “Tim Maia – Racional (1975)”.

Juntaram-se ao Instituto o carisma de Thalma de Freitas, MC Kamau, Bnegão e Carlos Dafé. Uma combinação cheia de musicalidade e bem temperada com os metais poderosos da banda.

Em clima de emoção, a suíte entre o soul e o funk ganhou pitadas de rap nas letras compostas por Tim em 1975, na época em que seguia a seita "Universo em Desencanto".



Racional, a fase musical-maluco-religiosa de Tim Maia, durou de 74 a 76 e foi a sua pior comercialmente. No entanto, foi quando ele explorou seu potencial criativo com mais liberdade (por estar em um selo próprio, o Seroma), ter sua voz mais limpa (por ter parado com as drogas e bebidas), e mergulhar mais fundo nas influências do funk e do soul.

Foram lançados os LPs Racional Vol. 1 e 2, e o terceiro foi engavetado sem ser concluído. Depois do fracasso de vendas, Tim renegou a seita e os discos.

No show do Instituto, Carlos Dafé, que era da banda original de Tim Maia, resgatou uma dessas faixas inéditas.

A música estava na série de gravações feitas pelo cantor para o engavetado “Volume 3”, divulgadas no ano passado e que, até aquele momento, eram desconhecidas do grande público.

Afasto-me da multidão. Desço a avenida São João. Caminho pelo Vale do Anhagabaú até o viaduto do Chá. Sentado na grama para um breve descanço, admiro o Teatro Municipal. Penso em ir embora. Que nada. São quase 6h. Melhor correr para o palco da avenida Rio Branco. O show do Sambasonics já vai começar.

Os primeiros raios de sol da manhã de domingo iluminam o centro e eu estou dançando sambarock com outra desconhecida.

terça-feira, 5 de maio de 2009

Marcelo Camelo canta Los hermanos

É preciso força pra sonhar e perceber
Que a estrada vai além do que se vê


Depois de dançar ao som de sambarock na avenida Rio Branco retorno a São João. Marcelo Camelo entrou no palco pontualmente à meia-noite de sábado (2) para domingo (3). Acompanhado dos excelentes músicos da banda paulistana Hurtmold, Camelo apresentou canções de seu álbum solo, “Sou/Nós”, e duas canções do Los Hermanos, “Morena” e “Além do Que Se Vê”.

Visivelmente mais à vontade do que no show de reunião dos Hermanos, ocorrido no Just a Fest em março, Camelo não se cansou de elogiar a platéia e a beleza do palco, cravado em meio a prédios antigos do centro de São Paulo e com vista para toda uma avenida São João lotada. “Que lugar incrível. É muito lindo daqui de cima”, repetia o músico.

A apresentação teve início com “Passeando”, de seu disco solo. Em “Janta”, era esperado que Camelo cantasse com Mallu Magalhães, que espiava o namorado do canto do palco e acompanhava todas as letras. Mas, a despeito dos pedidos insistentes do público, Mallu não participou do show.

Na marchinha de Carnaval “Copacabana”, fãs jogaram confete e serpentina para o alto, do mesmo jeito que os admiradores dos Hermanos faziam durante a execução do hit “Todo Carnaval Tem Seu Fim”.


“Sei que a tua solidão me dói”, canta em uníssono o público. Sim. A última música do show de Marcelo Camelo é dos Los Hermanos – quase uma resposta aos gritos que pediam a volta do seu grupo, em hiato indeterminado no momento.

Sorrindo, se abaixava, virando o ouvido para o público, como se quisesse ouvir as vozes. A banda entre e começa a acompanhar o cantor – antes do fim, Camelo se despede, larga a guitarra, e vai para o canto do palco, para beijar apaixonadamente a namorada Mallu Magalhães.Um a um, os músicos vão deixando a música, que virou um instrumental, e o show termina.

segunda-feira, 4 de maio de 2009

O Senhor do Rock


Um senhor de barba e longos cabelos brancos sobe no palco montado na avenida São João, na capital de São Paulo. Com o ar britânico que lhe é peculiar Jon, como um Lord, ajeita o paletó, aproxima-se do órgão e pede desculpas por não falar em português.

“Sorry not speak in Portuguese, but I do not know how. I hope you understand. Of my heart for your heart.”

Não foi preciso. No órgão, Jon Lord transmitiu sua mensagem com perfeição. A sincronia entre a orquestra paulistana e a banda impressionou a plateia. Violinos, baixos e harpa preenchiam as lacunas entre solos agudos e distorcidos de Jon.


O fundador e ex-tecladista da banda de rock “Deep Purple”, Jon Lord, abriu a Virada Cultural com o repertório do álbum de 1969 “Concerto para grupo e Orquestra” e alguns hits do clássico “Machine Head”.

Acompanhado pela Orquestra Sinfônica Municipal de São Paulo e pelos músicos Steve Balsamo (vocal), Kasia Laska (vocal), Chester Kamen (guitarra), Guy Pratt (baixo) e Steve White (bateria), apresentou as músicas de riffs de rock com arranjos de música clássica.

O público, composto de “fieis” de rock, mantinham a atenção voltada aos arranjos clássicos, mas, quando Lord soltava seus ataques no órgão, o público reagia com a intensidade religiosa característica do público fã de rock´n roll clássico.

Embora o show anunciado tenha sido o “Concerto para grupo e Orquestra”, o ápice da apresentação deu-se no final quando Lord tocou dois clássicos do álbum “Machine Head”: “Soldier of Fortune” e “Pictures of Home”.

Concerto para grupo e Orquestra (1969)

Fora da banda desde 2002, o tecladista ficou conhecido por tocar acordes de rock´n roll com arranjos de música clássica. Executado pela primeira vez pelo Deep Purple em 1969, “Concerto para grupo e Orquestra” foi um álbum inusitado e marcou uma revirada no estilo da banda. Antes deste, os álbuns “Shades of Deep Purple” (1968), “The Book of Taliesyn” (1968) e “Deep Purple” (1969) – já demonstravam influências semelhantes, mas sem os arranjos clássicos e, principalmente, sem a orquestra.

Se, hoje, é comum ver bandas de rock pesado tocando com orquestras, no final da década de 60 o álbum trouxe uma mudança no estilo para o grupo e influenciou a fase seguinte da banda, responsável pelo grande sucesso. Após “Concerto para grupo e Orquestra”, a banda lança Fireball (1971), Made in Japan (1972), Machine Head (1972) e Burn (1974), e consolidou-se como uma das maiores bandas de hard-rock de todos os tempos.

segunda-feira, 20 de abril de 2009

Por que não proíbem logo fabricar cigarros?


Por que não proíbem logo fabricar cigarros?
A lei antifumo de Serra não combate o cigarro: ela estigmatiza o fumante e envenena a sociedade

É difícil apontar o pior defeito da lei antifumo que o governador José Serra fez aprovar na Assembleia Legislativa de São Paulo. Ela consegue ser iníqua, demagógica e ineficaz ao mesmo tempo. Serve pouco ou nada para reduzir os males ou combater o vício do tabagismo, mas contribui, e muito, para fomentar uma histeria discriminatória que anda envenenando as relações sociais. Não é uma lei contra o cigarro. É só mais um instrumento, com o peso do Estado, para estigmatizar o fumante.

Se o leitor continuar disposto a considerar os argumentos de um fumante, mesmo suspeito de parcialidade, vamos a eles. Basta um teste simples para saber se uma iniciativa é realmente eficaz para reduzir o consumo de cigarros: conferir a reação dos fabricantes. A Lei Serra nem sequer fez cócegas na indústria do fumo. Os sindicatos dos hoteleiros e dos donos de bares e restaurantes é que anunciam ações judiciais contra a nova lei. Devem ganhar, mas vão pagar o desgaste de uma ação considerada politicamente incorreta. A indústria do cigarro só se mexe quando é atingida no cofre, pela elevação de impostos, ou no balcão, pelo controle dos pontos de venda.

A indústria brasileira vive há anos num paraíso fiscal de tabacaria. Sob o pretexto de combater o contrabando, essa política aumenta o consumo interno. Entre 1998 e 2007, o peso relativo do IPI sobre os cigarros caiu de 36,3% para 20,5%, enquanto o número de maços vendidos no país passou de 4,8 bilhões para 5,5 bilhões. Aumentar imposto e preço é também a forma mais eficiente de reduzir a adesão de jovens ao vício.

A lei pode estar inspirada em boas intenções, mas o resultado é uma violência – não só contra o fumante. Ela começa pela abolição do livre-arbítrio. A pretexto de garantir o direito da maioria, ela proíbe o exercício da racionalidade. O cidadão é considerado incapaz de decidir sobre o que pode ou não pode fazer em espaços privados. Provavelmente é essa lógica autoritária que define o erro seguinte da lei: o desobediente não sofre sanção alguma, no máximo será removido por força policial. O fumante torna-se inimputável, como os índios e os loucos. Por fim, a aberração mais perigosa de todas: as multas previstas na lei recaem sobre o proprietário, responsável ou preposto que tolerar o fumo em locais de uso coletivo. É a terceirização da pena pelo crime que outra pessoa cometeu.

A lei é perniciosa na forma e perversa nas consequências porque estimula a delação. Ela envenena a convivência, a pretexto de limpar o ambiente. Se o Estado quer mesmo combater o vício, por que não proíbe logo a produção de cigarros e dispensa uma arrecadação anual de R$ 6 bilhões em impostos?

Não sei aonde o governador José Serra quer chegar apagando cigarros pelas ruas de São Paulo. Se ele olhar em volta, verá que o ex-presidente Fernando Henrique corre o mundo defendendo a legalização da maconha.

domingo, 19 de abril de 2009

Lima sem casca

Encontro com alguns amigos na noite da capital portuguesa. O garçom chega para anotar os pedidos.
- Uma caipirinha de lima para o sr. também?
- Sim, mas eu quero sem casca.
- Lima sem casca? Lamento sr. Não cultivamos essa variedade de Lima cá em Portugal.
(Lisboa - 28/11/2000)

sexta-feira, 17 de abril de 2009

Caminhada perigosa

Está cada vez mais perigoso caminhar na orla da praia de Santos, litoral de São Paulo. A qualquer momento você pode ser atacado por ratos raivosos do tamanho de gatos que saem repentinamente do jardim ou cair embrigado pela fumaça resultante da queima de ervas ilícitas praticada por jovens da comunidade local.

quarta-feira, 15 de abril de 2009

Sons da Itália

O compositor e tenor italiano Andrea Bocelli estará em São Paulo para uma apresentação gratuita no próximo dia 21, às 16h, no Parque da Independência (região sul da capital paulista).

Nesta passagem pelo Brasil, o artista irá mostrar um repertório baseado em seu último trabalho, "Incanto", que reúne as canções "Un Amore Cosi Grande", "Voglio Vivere Cosi" e "Funiculi Funicula", entre outras, que ficaram conhecidas mundialmente nas vozes de grandes tenores como Enrico Caruso e Luciano Pavarotti.

segunda-feira, 13 de abril de 2009

Virada Cultural

A organização da Virada Cultural 2009 já divulgou os destaques da programação musical. O evento será realizado nos dias 2 e 3 de maio, das 18h às 18h. Estão previstas centenas de atrações distribuídas pelo centro da capital paulista. A programação completa está no http://viradacultural.org/ .

O tecladista britânico Jon Lord, ex-Deep Purple, dará início à maratona de espetáculos no palco principal do evento, montado na Avenida São João. Ao lado da Orquestra Sinfônica Municipal de São Paulo, ele vai apresentar o Concerto para Grupo e Orquestra, de 1970.

No mesmo palco vão se apresentar Geraldo Azevedo, Marcelo Camelo, o coletivo Instituto tocando Tim Maia Racional (com BNegão, Thalma de Freitas e Carlos Dafé), Tribo de Jah, Cordel do Fogo Encantado, Zeca Baleiro, Novos Baianos e Maria Rita.

O Teatro Municipal, mais uma vez, reunirá artistas tocando álbuns clássicos na íntegra. Arrigo Barnabé vai apresentar seu "Clara Crocodilo", enquanto Egberto Gismonti tocará "Alma" e Tom Zé interpretará o álbum "Grande liquidação". Completam a programação do Teatro os artistas Chico Cesar ("Aos vivos"), Violeta de Outono (idem), Cama de Gato (idem), Fafá de Belém ("Água"), Francis Hime e Orquestra Experimental de Repertório ("Francis Hime") e Beto Guedes ("Alma de borracha").

Toca Raul
Na Estação da Luz, acontecerão os shows em homenagem aos 20 anos da morte de Raul Seixas, a serem completados em agosto. Lá, cada atração irá interpretar um disco do cantor e compositor baiano na íntegra. O primeiro show será da banda original de Raul, Os Panteras. A programação conta ainda com as presenças do último kavernista Edy Star, Vivi Seixas (filha do cantor), Kika Seixas (ex-mulher) e do roqueiro Nasi. A última atração será o cantor Marcelo Nova.

No Largo do Arouche, as atrações são as seguintes: Benito di Paula, Luis Ayrão, Wando, Reginaldo Rossi, Beto Barbosa, Wanderley Andrade, Bartô Galeno, Jane e Herondi, Silvio Brito, Odair José e Wanderley Cardoso. A Praça Dom José Gaspar reunirá pianistas. Passarão por lá Duo Lumina, Duo Gis Branco, Vitor Gonçalves, Lulinha Alencar, Pepe Cisneros, Beto Betrami, Leandro Cabral, Edson Sant’anna, Beba Zanettini, Rafael Vernet, Délia Fischer e Mário Moita.

O Largo Santa Efigênia receberá Anelis Assumpção, Iara Rennó, Lívia Nestrovski, Danilo Moraes, Curumin, Rockers Control, DJ Tudo, Os Pamonheiros, Banda Cayana, Leo Cavalcanti, Marcelo Jeneci, Por quê?, Bárbara Rodrix, Dani Black e Pedro Altério e Comadre Fulozinha.

Na Praça da República, estarão grandes nomes do rock brasileiro: Tutti-Frutti, O Som Nosso de Cada Dia, Joelho de Porco, Camisa de Vênus, Velhas Virgens, Los Goiales All Stars, MQN, Matanza, Vanguart, CPM 22, Nação Zumbi, Nasi e The Electric Sitar Experience.

Zappa
Lá, o último show será da Central Scrutinizer Band, considerada a melhor banda cover de Frank Zappa do mundo. O destaque fica por conta deste encerramento, que trará Ike Willis, lendário cantor do grupo de Zappa.

No Palco Rio Branco, o público poderá conferir apresentações dançantes de Sandália de Prata, Farufyno, Trio Mocotó, Clube do Balanço, Os Opalas, Sambasonics, Colomi, Balaco, Projeto Coisa Fina (Moacir Santos), Juliana Amaral e Gafieira etc e tal, Gafieira São Paulo e Havana Brasil.

sábado, 11 de abril de 2009

Acostumar-se

Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.

A gente se acostuma a morar em apartamentos de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor. E, porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora. E, porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E, porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E, à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.

A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora. A tomar o café correndo porque está atrasado. A ler o jornal no ônibus porque não pode perder o tempo da viagem. A comer sanduíche porque não dá para almoçar. A sair do trabalho porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.

A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra. E, aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja números para os mortos. E, aceitando os números, aceita não acreditar nas negociações de paz. E, não acreditando nas negociações de paz, aceita ler todo dia da guerra, dos números, da longa duração.
A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisava tanto ser visto.

A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que necessita. E a lutar para ganhar o dinheiro com que pagar. E a ganhar menos do que precisa. E a fazer fila para pagar. E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez pagar mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas em que se cobra.

A gente se acostuma a andar na rua e ver cartazes. A abrir as revistas e ver anúncios. A ligar a televisão e assistir a comerciais. A ir ao cinema e engolir publicidade. A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.

A gente se acostuma à poluição. Às salas fechadas de ar condicionado e cheiro de cigarro. À luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam na luz natural. Às bactérias da água potável. À contaminação da água do mar. À lenta morte dos rios. Se acostuma a não ouvir passarinho, a não ter galo de madrugada, a temer a hidrofobia dos cães, a não colher fruta no pé, a não ter sequer uma planta.

A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá. Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se a praia está contaminada, a gente molha só os pés e sua no resto do corpo. Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito o que fazer a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado.

A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele. Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se de faca e baioneta, para poupar o peito. A gente se acostuma para poupar a vida. Que aos poucos se gasta, e que, gasta de tanto acostumar, se perde de si mesma.

Eu sei, mas não devia.

(Marina Colasanti)